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sábado, 29 de março de 2008

Anquilossauro

© Sergey Krasovskiy


Era o ano de 1906, época de intensa caça aos fósseis na América do Norte e também dos mais famosos paleontologistas da história. Justamente neste ano o famoso Barnum Brown liderou uma expedição à Formação Hell Creek em Montana - Estados Unidos, onde encontrou um animal grande e diferente dos outros herbívoros conhecidos. O fóssil, composto de parte de um crânio, costelas, vértebras, ossos do ombro e de uma armadura óssea, fazia parte de um animal baixo, atarracado, que possuía calombos ósseos e placas osteodérmicas na pele e uma cabeça reforçada. Mas a reconstrução deste animal não foi tão exata porque partes do corpo estavam faltando, como as pernas e a cauda. Sendo assim, Barnum Brown imaginou o animal como os estegossaurídeos, que tem o quadril mais alto do que a região peitoral, formando uma silhueta curvada. Por isto em 1908 Brown nomeou o animal como Ankylosaurus magniventris, usando palavras do Grego, ankulos = curvado e Sauros = Lagarto. A curva em questão seria a inclinação do corpo do animal, como visto na reconstrução do esqueleto feita por Brown na época. Inclusive a clava da cauda não aparece, já que ainda não havia sido achada.
Esqueleto do Anquilossauro com postura e anatomia errada
© Barnum Brown 1908/Domínio Público

No entanto, o significado do nome deste dinossauro não é somente e exatamente Lagarto Curvado, porque Brown escolheu os termos pensando na "ankylosis", um termo médico que se refere especificamente ao endurecimento produzido pela fusão de muitos ossos no crânio e no corpo, originando então uma tradução mais comum, como "Lagarto Fundido" ou "Lagarto Endurecido".
Já o segundo nome vem do Latim, designando a aparência do animal também, com os termos Magnus = grande e Ventris/Venter = ventre/barriga, tudo porque o animal tem um corpo bem largo. A única espécie válida é A. magniventris e deu nome ao gênero Ankylosaurus, bem como à família Ankylosauridae.
Mas este não foi o primeiro fóssil encontrado do Ankylosaurus, somente foi o primeiro reconhecido como tal animal, mas alguns fragmentos de sua couraça foram encontrados 6 anos antes, pelo próprio Barnum Brown na Formação Lance, que fica no estado do Wyoming. Brown estava a escavar o Dynamosaurus imperiosus, um enorme terópode do Cretáceo que atualmente é conhecido como Tyrannosaurus rex, quando encontrou, junto dos ossos do carnívoro, um monte de placas osteodermicas, mais de 75 delas. Primeiramente se imaginou que pertencessem ao próprio Dynamosaurus ou T.rex, mas após encontrar o esqueleto do Ankylosaurus em Hell Creek, Barnum notou que tais osteodermas eram praticamente idênticas. Sendo assim, provavelmente o T.rex morreu perto do cadáver de um Anquilossauro, seja por causas naturais ou porque matou o herbívoro e devorou o mesmo. No entanto, não foram encontrados indícios de que o terópode comeu o dinossauro encouraçado, somente a prova da presença dos dois animais no mesmo ecossistema.
Depois da descoberta de Hell Creek ser feita, o animal foi nomeado como dito antes e os dois únicos vestígios tinham sido encontrados pelo mesmo paleontologista. Parece que Brown era "sortudo" para encontrar fósseis de Ankylosaurus, o que viria a se repetir em 1910. Ele havia viajado para o Canadá, em uma expedição à cidade de Alberta. Nas diversas formações do Cretáceo existentes ali, diversos fósseis foram achados, mas foi exatamente na Formação Scollard que Barnum encontrou outro fóssil do Ankylosaurus, desta vez com algumas novidades, pois o crânio estava completo e pela primeira vez a ponta da cauda com a clava óssea foi encontrada, além de costelas, ossos das pernas e obviamente da armadura.
Estes fósseis foram armazenados todos no Museu Americano de História Natural de New York, onde estão até agora. Mas outros fósseis deste dinossauro foram encontrados com o passar do tempo, que variam de dentes, pedaços da couraça e ossos avulsos, sendo que um deles é atualmente o maior crânio da espécie já descoberto. Foi achado por Charles M. Sternberg em 1947 e hoje fica no Museu Canadense da Natureza.
Depois de ser nomeado o Ankylosaurus ainda serviu de base para dar nome ao grupo de dinossauros couraçados, que ficaram conhecidos a partir daí como anquilossaurídeos, ou que pertencem à família Ankylosauridae.
A classificação e definição exata do Ankylosaurus dentro da família é incerta. Alguns acreditam que Ankylosaurus e Euoplocephalus são irmãos taxonômicamente, ou seja, seriam espécies com parentesco bem aproximado, porém outros pesquisadores dizem exatamente o contrário. Devido a diversidade de análises individuais e as grandes divergências entre elas, o Ankylosaurus fica perdido taxonômicamente, necessitando que novos esqueletos sejam encontrados para que melhor possa ser classificado. Segundo o site DinoData, a classificação do Ankylosaurus é a seguinte, a começar por Ornithopoda.
Ornithischia > Thyreophora > Eurypoda > Ankylosauria > Ankylosauridae


O Anquilossauro era um grande dinossauro, media entre 6.25 metros (a menor estimativa) e 9 metros. Existem estimativas que vão a 10 metros, tornando este o maior dinossauro de couraça já descoberto até hoje. Sua altura não era tão avantajada, deveria ter cerca de 1.7 a 2 metros de altura e seu peso deveria girar por volta de 6 toneladas.
Este dinossauro é até engraçado se o observarmos, pois tem uma aparência desengonçada, bem baixo e atarracado, quadrúpede e herbívoro, ou seja, quase um enorme jabuti, porém mais ágil. No entanto, mesmo sendo ágil, o Anquilossauro não deve ter sido muito veloz na corrida, porque o peso do corpo seria um obstáculo, levando-se em conta a postura das pernas, que acredita-se terem tido 5 dedos em cada pé, isto porque o pé deste dino nunca foi achado e suas reconstruções são baseadas em outros animais semelhantes.
A cabeça dele também é um pouco estranha, afinal era maior em largura do que em comprimento! Sim, tinha cerca de 64,5 centímetros de comprimento e aproximadamente 74,5 centímetros de largura. De qualquer forma, ele não precisava ser veloz, afinal sua couraça e sua cauda com clava asseguravam, pelo menos na maior parte do tempo, a segurança contra qualquer predador, até mesmo contra o famoso T.rex.
Crânio de perfil
©
A.E. AndersonCrânio visto de cima
©
A.E. Anderson
Plano de fundo e medidas editados por Patrick Król Padilha

Obviamente que tal proteção era fornecida pela pele endurecida como já dito, cuja composição é baseada de osteodermas, placas de osso grossas que cresciam na pele ou "fundidas" a ela, formando uma carapaça. Várias osteodermas juntas formavam tal carapaça, mas assim mesmo alguns pontos ficavam vulneráveis, principalmente a junção entre uma placa e outra. Por isto justamente nestes pontos de junção nasciam pequenos calombos ósseos que grudavam as placas, não deixando ponto algum desprotegido na parte superior do corpo. A barriga já era mais frágil, mas para poder atacá-la, um dinossauro teria de virar o Anquilossauro de cabeça para baixo, o que era praticamente impossível porque ele era pesado e forte.
Voltando a couraça deste grande tireóforo, podemos supor que suas osteodermas, calombos e espinhos eram recobertos de queratina dura, ou seja, a mesma substância de que são feitas nossas unhas. Tais calombos e placas podiam ser achatados ou altos, pequenos ou grandes e ainda arredondados ou pontiagudos.
Embora Barnum Brown tenha desenhado o Anquilossauro incorretamente na postura e anatomia, ele fez uma boa reconstrução das osteodermas, como vemos abaixo.
Anquilossauro visto de cima
Desenhado por Barnum Brown em 1908

© Imagem de Domínio Público

Como os demais anquilossauros, o Ankylosaurus era herbívoro, e para comer usava sua boca com dentes em forma de folha adaptados para cortar vegetação. Estes dentes eram menores, se comparados ao tamanho do corpo, do que os dentes de outros anquilossaurídeos. O Ankylosaurus não tinha dentes em baterias, como os Hadrossaurídeos e Ceratopsídeos, então não podia mastigar tão bem como os dinossauros dos grupos citados acima, apesar de que alguns ossos do crânio e do corpo eram fundidos para acrescentar força ao animal, além de que possuía um bico para cortar as plantas.
Anquilossauro com o bico em evidência
©
Todd Marshall

As pernas e cauda do Ankylosaurus não eram vulneráveis, apesar de não ter tanta proteção como as costas. As pernas tinham pequenos calombos e placas, e com a cauda não era diferente, pois possuía fileiras de osteodermas em toda as laterais.
Observe a anatomia do Aqnuilossauro
© Paleoguy/JWK/Dinoraul
O crânio deste animal era uma verdadeira caixa forte, um cofre onde ficava abrigado o cérebro, protegido pela camada grossa de placas circulares que junto com 4 grandes chifres pontudos, em forma de pirâmide, que se projetavam lateralmente da parte traseira do crânio.
Observe os chifres no crânio© Paleoguy/JWK/Dinoraul
Mesmo sendo o maior dinossauro encouraçado, o Anquilossauro não tinha a couraça mais "espetacular", pois seus calombos e placas eram na maioria lisos e arredondados, não crescendo tanto. Já no Euoplocephalus e no Edmontonia as placas eram incríveis, alongadas e pontiagudas como espinhos, o que devia meter medo em qualquer predador.
Mas, sem dúvida alguma, uma característica que este dinossauro possuiu e que hoje nos impressiona, é sua clava óssea, situada na ponta da cauda. Formada por enormes osteodermas que eram fundidas umas nas outras, a "bola" de osso maciço era suportada pela cauda que na ponta tinha as 7 últimas vértebras fundidas umas nas outras e também na própria clava, para que o peso da arma pudesse ser suportada e também para que se necessário fosse, o animal usasse a cauda como um martelo, golpeando o inimigo com força.
As vértebras da cauda tinham tendões parcialmente ossificados, o que dava mais resistência para aguentar a clava durante o balanço da mesma e para aplicar um golpe, que tinha um resultado bem potente, podendo até quebrar ossos ou afetar órgãos internos do inimigo, o que pode ser comprovado com os restos fósseis dos tendões encontrados, ou seja, este pacato herbívoro tinha uma impressionante e eficiente arma de defesa.
Animais atuais, como cobras, têm um artifício de defesa chamado engodo, que consiste em tornar a cauda parecida com a cabeça, para que num ataque o predador cause danos à cauda, que não contém órgãos vitais e deixe a cabeça livre, para que o animal posso viver ou mesmo contra-atacar o predador. Cobras corais brasileiras enrolam a cauda, que fica "gordinha" como se fosse a cabeça, por isto alguns paleontologistas certa vez propuseram que a clava do Anquilossauro tivesse a mesma finalidade, no entanto a hipótese foi descartada porque não havia necessidade disso, sendo que o crânio do animal era perfeitamente protegido pela couraça e pelos espinhos.
Por falar em predadores, o Anquilossauro viveu há cerca de 68 a 65.5 milhões de anos atrás, no finalzinho do Cretáceo, época conhecida como Maastrichtiana, a última do Cretáceo. Por isto este réptil deve ter convivido com predadores como Tyrannosaurus rex e Dromaeosaurus, além de ter visto de perto a extinção.
A América do Norte do Cretáceo era bem diferente, porque o oceano havia invadido o continente formando um mar interior, raso e repleto de predadores marinhos de diversos tipos, como o Tilossauro. Este mar era longo e dividiu a América do Norte em duas partes, sendo que o Anquilossauro viveu na parte que correspondia ao lado Oeste do mar, local que provavelmente era uma planície extensa, onde às vezes ocorriam inundações.
Os paleontologistas afirmam que a área deve ter ficada inundada porque as formações rochosas resultantes daquele local contém muito arenito, que é pedra formada por areia e uma espécie de xisto, que é formado por lama. Se não era inundado, pelo menos deve ter sido bem úmido, um clima subtropical, quente, com vegetação variada, incluindo angiospermas, que pela primeira vez apresentavam flores ao mundo, além das tradicionais, mas em menor quantidade, coníferas, cicadáceas e samambaias.
Segundo pesquisadores, escavações de cerca de 12 sítios fossilíferos diferentes da região indicam que a maioria das árvores eram pequenas. Neste ambiente viviam outros tipos de herbívoros, entre eles o Triceratops e o Edmontossauro, cujos fósseis são abudantes se comparados aos escassos restos do Anquilossauro.
Outro contemporâneo do Anquilossauro era o Edmontonia, um dinossauro menor que também tinha couraça, mas os especialistas em dinossauros que estudaram estes animais afirmaram que é bem improvável que indivíduos destas espécies tenham se encontrado.
Os cientistas dizem isto porque o Anquilossauro era adaptado a climas mais secos e terrenos planos, porque sua boca era adaptada para pastar, mas não permitia que ele escolhesse o alimento dentre detritos ou em solos úmidos, porque o focinho era largo demais para tal serviço, então deveria se limitar a locais mais altos, onde a água do mar não chegava.
O Anquilossauro vivia em locais mais altos e secos
© Paleoguy/JWK/Dinoraul

Já o Edmontonia, tinha um focinho bem mais estreito, o que permitia uma alimentação mais selecionada, escolhida no solo, mesmo que este tivesse detritos, lama ou mesmo água, por isto ele vivia principalmente na região litorânea, perto do mar.
O Anquilossauro sem dúvida viveu no auge da vida no Cretáceo, época cujos animais tornaram-se ícones dentre os dinossauros, o que também ocorreu com este réptil que mais parece um "tatuzão". Devido aos incríveis aparatos físicos de defesa e ao seu tamanho, o Anquilossauro tornou-se sinônimo de dinossauro couraçado e acabou entrando no gosto e conhecimento popular, aparecendo diversas vezes na mídia, sendo desde filmes até figurinhas de coleção.
Ele aparece em Jurassic Park 3 (2001) comendo calmamente. Livros sempre o mostram e desenhos animados como Em Busca do Vale Encantado também já mostraram este dino. Entre os bonecos de dinossauros, uma das espécies mais feitas é o Anquilossauro.
Ankylosaurus de Jurassic Park 3© Universal Pictures
Em documentários ele tem presença marcada, uma delas e talvez a mais reconhecida é a do "Walking with Dinosaurs", documentário no qual o Anquilossauro aparece no último episódio, e inclusive fere um Tiranossauro fêmea com a cauda, o qual morre logo depois em decorrência dos ferimentos.
Ankylosaurus de Walking with dinosaurs
© BBC
Ankylosaurus de Walking with dinosaurs
© BBC
Outro filme que representou este dinossauro é o clássico infantil Dinossauro, da Disney, longa metragem de animação em que um Anquilossauro é bem ingênuo e simpático, até um pouco infantil e chama-se Url.

Fontes

2 comentários :

Roger disse...

cara, muito legal seu blog
continue postando pois você está fazendo um ótimo trabalho
o/

ps.: minha paixão pelos dinos quando criança tá voltando de novo graças a vc, hehe

dinosaur word disse...

muiot legal o seu Blog viu adorei